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Florinhas do Vouga: um “porto seguro” para trabalhadorxs do sexo em Aveiro

Há cerca de uma década, a Florinhas do Vouga assumiu um papel essencial no apoio a trabalhadorxs do sexo no distrito de Aveiro, preenchendo um vazio deixado pela ausência de respostas sociais dedicadas a esta comunidade. Este trabalho valeu à instituição uma Menção Honrosa no Prémio AproXima-Te 2025.

A psicóloga da equipa de intervenção direta da Florinhas do Vouga, Mariana Serra, diz que esta distinção permite reforçar materiais fundamentais, como testes de rastreio a VIH, sífilis e hepatites, e melhorar o trabalho no terreno, através de equipamentos como uma mala médica e casacos de identificação.

A parceria com o Plano AproXima, o departamento de Responsabilidade Social do Classificados X, é descrita como crucial por esta responsável, que nota que facilita a ligação entre equipas de todo o país, promove a troca de conhecimento e garante apoio técnico sempre que surgem dúvidas no trabalho diário.

Apoio a trabalhadorxs do sexo quando não havia resposta

A Florinhas do Vouga decidiu apoiar trabalhadorxs do sexo quando um projeto local dedicado ao tema terminou, deixando esta população sem acompanhamento na zona de Aveiro.

Embora a equipa tenha como público-alvo pessoas em situação de sem-abrigo e consumidoras de substâncias, assumiu este novo desafio para evitar que quem faz Trabalho Sexual ficasse desprotegidx.

Hoje, intervém sobretudo no concelho de Aveiro, com atendimento no gabinete e visitas ao domicílio por marcação.

A equipa oferece rastreios a ISTs, material preventivo, apoio psicossocial e acompanhamento a consultas, incluindo articulação direta com o Serviço de Infecciologia do Hospital de Aveiro.

Florinhas do Vouga – Equipa de Intervenção Directa
+ Rua Espinho nº 31, 3810-114 Aveiro
+ Horário de Funcionamento: 09H-17H
+ Tel: 963727023 / 234482235
+ Email: eidaveiro@florinhasdovouga.pt

Estigma e barreiras no acesso à saúde

O maior obstáculo que Mariana Serra encontra nesta área continua a ser o estigma, o que leva muitxs profissionais do sexo a evitarem revelar a sua atividade nos serviços de saúde por medo de julgamentos.

A psicóloga da Florinhas do Vouga acredita que a regulamentação ou descriminalização do Trabalho Sexual poderia reduzir preconceitos e reforçar a proteção social e física destas pessoas.

O acesso regular à saúde continua a ser uma necessidade urgente, agravada pela mobilidade constante dxs trabalhadorxs do sexo e pelo facto de a maioria das pessoas acompanhadas serem migrantes, muitas sem médico de família.

Brasileirxs podem recorrer ao PB4 para aceder ao SNS

Mariana Serra destaca que “95% dos [utentes que acompanha] são brasileirxs”. Mas, neste caso, podem recorrer ao PB4, ou CDAM – Certificado de Direito à Assistência Médica, um documento que permite aos cidadãos brasileiros acederem ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) nas mesmas condições que um cidadão português.

O pedido do PB4/CDAM é feito no portal gov.br, através do serviço “Solicitar Certificado de Direito à Assistência Médica – CDAM (PB4)”. Para isso, só é preciso ter conta no portal governamental brasileiro, um documento de identificação brasileiro (RG: Registo Geral ou CNH: Carteira Nacional de Habilitação), CPF e comprovante de residência no Brasil.

Depois, é só apresentar o PB4 no centro de saúde da área de residência em Portugal, para  fazer a inscrição no SNS e obter o número de utente.

Um trabalho de proximidade e confiança

O contacto dxs trabalhadorxs do sexo com a equipa da Florinhas do Vouga faz-se, sobretudo, através do “passa-palavra”. O telemóvel de apoio está disponível 24 horas por dia, e as visitas aos apartamentos são frequentes – pelo menos, duas saídas semanais.

Mas a relação de confiança construída ao longo dos anos faz com que muitas pessoas procurem diretamente o gabinete da instituição em Aveiro.

Mariana Serra sente diariamente o impacto deste vínculo: sempre que surge uma crise, um problema de saúde ou uma dúvida, são xs trabalhadorxs do sexo que telefonam.

Um dos casos mais marcantes aconteceu no final do ano, quando uma jovem acompanhada pela equipa ligava quase de hora a hora enquanto estava na urgência – um sinal claro de que vêem a Florinhas do Vouga como “um porto seguro”, como destaca Mariana Serra.

“Trabalhadorxs do sexo têm o poder de dizer não”

Para os próximos anos, Mariana Serra gostaria de criar na Florinhas do Vouga, um grupo de apoio para trabalhadorxs do sexo, embora a rotatividade dificulte a continuidade de um projeto como este.

Outro objetivo é estabelecer uma parceria com um ginecologista para garantir consultas regulares e acessíveis.

A terminar, a psicóloga deixa uma mensagem final que é simples, mas poderosa: o Trabalho Sexual é, em muitos casos, “uma escolha” – e quem o exerce “tem o direito de dizer não”.

Desconstruir a ideia de que estas pessoas “têm de aceitar tudo” é, para Mariana Serra, fundamental para combater o estigma e reconhecer a autonomia de quem faz Trabalho Sexual.

Gina Maria

Jornalista de formação e escritora por paixão, escreve sobre sexualidade, Trabalho Sexual e questões ligadas à realidade de profissionais do sexo.

Plano AproXima